O MUSEU DE NÓS PRÓPRIOS

O Projeto Alcateia – Serviço Educativo da Fundação Lapa do Lobo dedicou o mês de dezembro à memória, através da dinamização de duas oficinas de escrita e de teatro, inspiradas no universo temático, artístico e dramatúrgico do projeto “Museu da Existência”, da companhia de teatro Amarelo Silvestre.

Entre os dias 5 e 14 de dezembro, a oficina “Como construir um Museu”, orientada pelo dramaturgo Fernando Giestas, acolheu 232 alunos do 6º ano do 2º Ciclo do Ensino Básico dos Agrupamentos de Escolas de Canas de Senhorim, Carregal do Sal e Nelas. Antes disso, todas as turmas receberam a visita do Projeto Alcateia, para recolha, registo e identificação de objetos pessoais que guardassem memórias importantes na vida destes meninos e meninas de 11 anos. Foi-lhes contado que um homem, Senhor Melo, decidiu construir um Museu com objetos que as pessoas fazem existir. Objetos com memórias vivas. O chapéu salva-vida, o pão torrado que alimentou um amor clandestino, a aliança da revolução que acabou com a guerra, a boneca que não se pode partir e tantos outros. É isso o Museu da Existência. Um museu que é uma casa em construção, por dentro. Nesta oficina, a proposta foi criar um lugar de histórias e objetos, a partir das vivências de cada participante. São deles as memórias vivas desta casa efémera, que continuará a existir num pequeno livro, entregue a todos os alunos, com imagens e relatos feitos de hesitação, gargalhadas, orgulho, saudade, coragem e lágrimas também: a medalha de corta-mato da Ana, que, mesmo com o pé magoado, chegou à meta; as ferraduras do primeiro cavalo do João; o pedaço de madeira que o pai fez para o Simão; as primeiras chuteiras amarelas do Valentim; a farda de bombeira da Margarida, que se voluntariou aos seis anos; a primeira guitarra do Gustavo; o anel que o bisavô ofereceu à Bia, no último dia em que estiveram juntos; a fotografia do irmão mais novo do Tiago; o primeiro lápis do Gabriel; a rocha que a Maria trouxe dos Açores; o elástico de cabelo da primeira namorada do Gonçalo…

Na primeira semana de férias de natal, do dia 18 ao dia 21 de dezembro, foi desenvolvida a oficina de criação artística “A Matéria da Memória”, com um grupo de 17 crianças e jovens com idades entre os 6 e os 15 anos, sob orientação da atriz e encenadora Rafaela Santos.
Uma medalha, um peluche, uma fotografia, uma bola, um boné, um par de botas, um rebuçado, um relógio… Objetos que podem ser banais, mas especiais em momentos da vida de diferentes pessoas. Esta oficina propôs a valorização das histórias individuais versus universais, através também da partilha de um objeto particular de cada um dos participantes. A partir de exercícios práticos de teatro, o movimento e a voz ajudaram a descobrir e a compreender o receptáculo de emoções e experiências que é o nosso corpo e que a memória vai evocando, revelando aos poucos o caminho para o museu de nós próprios. E foi aí que se desenhou um percurso pela Fundação Lapa do Lobo, onde participantes, pais, familiares e amigos puderam atravessar e sentir as diferentes texturas da matéria da memória. Esta apresentação pública final permitiu a partilha do processo de trabalho.

Os principais objetivos destas duas propostas foram: explorar linguagens e conteúdos a partir do universo artístico do espetáculo; criar espaços de liberdade de expressão e de criação; promover a expressão dramática, o teatro e a escrita como recursos criativos; estimular competências cognitivas, expressivas e sociais; proporcionar a descoberta e a experimentação partilhada, em processos artísticos de criação; suscitar a reflexão e o debate em torno de temas pertinentes, como a memória, a existência e os afetos; promover a sensibilidade estética.