ENCONTROS DA EDUCAÇÃO E DO PENSAMENTO

A segunda edição de ENCONTROS DA EDUCAÇÃO E DO PENSAMENTO, integrada na programação do Projeto Alcateia – Serviço Educativo da Fundação Lapa do Lobo (FLL), realizou-se nos dias 26, 27 e 28 de abril, no Auditório Maria José Cunha.
Na edição de 2016, esta conferência contou com um programa mais generalista, que teve a intenção de lançar uma série de conceitos-chave relacionados com a infância e a educação. Nos anos seguintes, mantendo uma regularidade bienal, o objetivo é aprofundar temas específicos em cada edição. Assim, em 2018, o grande tema foi “Liberdade na Infância”.
À semelhança do que aconteceu na edição anterior, os Encontros da Educação e do Pensamento contaram com a presença de um público diversificado, oriundo dos concelhos de Carregal do Sal e Nelas, abrangidos pela intervenção regular da FLL, mas também de locais mais distantes como Viseu, Coimbra, Guimarães ou Lisboa.

Como prometido na primeira edição, desta vez, estes Encontros foram alargados às crianças, através da “Mini-Conferência para Miúdas e Miúdos Curiosos”, à qual assistiram cerca de 230 crianças, pais e professores, ao longo de cinco sessões. Esta proposta de conferência pensada para crianças, em contexto de escola e de família, foi construída em parceria com o Teatro Maria Matos, com o apoio criativo do dramaturgo José Maria Vieira Mendes e com a autoria da socióloga da infância Gabriela Trevisan.
Para a criação da Mini-Conferência, esta equipa, junto com o Serviço Educativo da FLL, visitou escolas dos Agrupamentos de Canas de Senhorim, Carregal do Sal e Nelas e conversou com turmas do 5º ano sobre Liberdade. A partir de um conjunto de perguntas, problematizou-se o tema, resultando respostas muito pertinentes. À pergunta “Quando é que não somos livres?”, os alunos responderam: “Quando acordamos…”, “Quando obrigam as pessoas a fazerem coisas que elas não querem”, “Quando ficamos fechados num sítio sem poder sair, sem ver o mundo.(…)Conhecer o mundo é ser livre”, “Quando há guerra”, “Quando somos maltratados”, “Quando somos manipulados”, “Nas aulas, não somos livres”, “Eu gosto das quartas-feiras, porque somos mais livres”. Quanto à pergunta “E quando é que somos mais livres?”, surgiram respostas como: “Quando podemos mandar em nós próprios e escolher o nosso lugar”, “Podemos ser livres se as pessoas nos respeitarem”, “Eu sinto-me mais livre quando estou sozinho em casa”. Quando confrontados com a questão “Quem tem mais liberdade, as crianças ou os adultos?”, afirmaram: “As crianças são mais livres, porque os adultos têm mais responsabilidade”, “Para ser totalmente livre, acabava por ficar sozinho”, “Se nos dessem liberdade para tudo, era uma confusão”. Colocou-se ainda a pergunta “Sentem que têm liberdade para falar?”, a qual despoletou reações como: “Nas aulas, temos liberdade para falar… mas não para falar uns com os outros”, “Somos mais livres quando pensamos, porque, às vezes, quando falamos, somos criticados”. Finalmente, a pergunta “Quais são as liberdades mais importantes?” obteve a resposta unânime: “Brincar, aprender e ter uma família que cuida de nós”.
A partir desta pesquisa junto dos alunos, nasceu a Mini-Conferência, um formato de participação ao qual normalmente os mais novos não acedem, proporcionando assim uma oportunidade de diálogo aberto entre a oradora e as crianças.

Para além da Mini-Conferência, os Encontros contaram com as comunicações de Álvaro Laborinho Lúcio e de Carlos Neto. A introdução destas comunicações ficou a cargo de Carlos Torres, Presidente do Conselho de Administração da FLL, e de Ana Lúcia Figueiredo, Coordenadora e Programadora do Serviço Educativo da FLL.
O primeiro orador, Álvaro Laborinho Lúcio, Juiz Jubilado do Supremo Tribunal de Justiça, antigo Ministro da Justiça, Deputado à Assembleia da República e cidadão com intensa atividade cívica, entre muitos outros cargos, apresentou a comunicação “Educação e Liberdade – de pequenino se torce o destino”, durante a qual alertou a plateia para a importância de educar (as crianças) e formar (os professores) para os direitos, remetendo para a Convenção dos Direitos da Criança. Com um discurso assertivo e inspirador, este orador afirmou que é necessário olhar para as crianças e reorganizar a escola pública de baixo para cima, defendendo que “A escola deve formar desobedientes críticos”.
O segundo orador, Carlos Neto, Professor Catedrático na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa e fundador da Sociedade de Educação Física, foi também membro do Conselho Coordenador do Instituto de Apoio à Criança e presidente da Sociedade Internacional para Estudos da Criança, para além de se dedicar ao estudo do desenvolvimento de habilidades motoras e efeitos de situações de ensino. A sua comunicação, que conquistou o entusiasmo do público, intitulada “Libertem as crianças: mais mobilidade e risco, autonomia e participação”, contrapôs a “cultura do risco” à “cultura do medo”, no que diz respeito à literacia motora e ao conhecimento e desenvolvimento do corpo, defendendo que “brincar é apropriar-se do mundo” e “o risco é o motor simbólico do eu”.

Retomando um excerto de um dos livros que inspirou o pensamento, a preparação e a divulgação desta edição dos Encontros: “Quando somos crianças, o mundo fica bonito de repente. E simples. Parece um céu aberto com estrelas possíveis de serem apanhadas e guardadas numa gaiola sem paredes de fechar ninguém.” (“Uma Escuridão Bonita”, de Ondjaki).