UM MANIFESTO DE POESIA

Entre os dias 21 de janeiro e 7 de fevereiro, o Projeto Alcateia – Serviço Educativo da Fundação Lapa do Lobo apresentou “Vamos comprar um poeta”, um espetáculo de teatro, encenado e interpretado por Adriana Campos, com apoio à conceção de figurinos e adereços de Mariana Nunes e confeção de adereços da responsabilidade da Sala T da Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra. Esta proposta, dirigida aos alunos dos 7º, 8º e 9º anos do 3º Ciclo de Ensino Básico dos agrupamentos de escolas de Canas de Senhorim, Carregal do Sal e Nelas, circulou por seis bibliotecas escolares, chegando a 765 alunos, professores e funcionários, ao longo de 15 sessões.

O livro de Afonso Cruz, que deu nome ao espetáculo, foi a inspiração para esta criação a solo, na qual Adriana Campos representa uma personagem adolescente que defende os altos benefícios da poesia, num texto tão irónico quanto inteligente. Apesar da complexidade do discurso, o público-alvo (da mesma idade da personagem) facilmente se deixa conquistar, mantendo uma atenção surpreendente nas histórias que se cruzam num cenário de prateleiras de livros cobertas de plástico, adereços de papel amarelecido e caixas de madeira com conteúdo “frágil”. Como frágeis são as relações da família desta rapariga que nos descreve a experiência exótica de adquirir um poeta, convicta de que essa aquisição reduz o stress do pai, da mãe e do irmão e os torna cidadãos mais produtivos, concentrados e eficazes. O que ela não espera é que o poeta lhe dê a mão, a faça descobrir essas coisas inutilistas a que chamam me(n)táforas e a repensar a sua pirâmide das necessidades…

Este é um espectáculo-manifesto que voa das páginas em que foi escrito para tornar a vida menos desfocada! E chega a todos, como um alerta sensível para aquilo que é ou deveria ser verdadeiramente importante.  No final, ainda é possível os espectadores partilharem ideias, opiniões e outras questões como estas: “Surpreendeu-me a ideia de que de uma janela pequena podemos ver o mar grande, porque é mesmo verdade!”; “Gostei do momento em que [a personagem] defendeu aquilo em que acreditava”; “Foi inspirador da janela mostrar o mar”; “A sociedade é materialista, mas isto [poesia] também é importante”; “É a visão de alguém que vê mais do que as outras pessoas, que pensa e que sente…”; “Ela está a comer [numa biblioteca abandonada], porque é uma inspiração para ela”; “A personagem espantou-me, porque vê o mundo de duas maneiras”; “Surpreendeu-me o poeta, por causa das inutilidades que dizia e, afinal, é grande!”; “A lupa pode fazer-nos imaginar coisas que ainda não estão cá, que ainda não foram descobertas”; “O rolo de papel branco é como o rolo da nossa vida”; “A sensação que tive foi como se nós fôssemos migalhas, porque somos levados pelo vento, e somos aves, porque também levamos os outros”.

Os objetivos artísticos e educativos desta proposta foram: proporcionar o contacto com diferentes formas de expressão e criação artística, como o teatro e a literatura; estimular competências expressivas e criativas, através do olhar, do pensar e do sentir; proporcionar a fruição de objetos artísticos em espaços não convencionais, como as bibliotecas escolares; promover a sensibilidade poética, estética e artística. Porque, como escreve Afonso Cruz, no livro “Vamos comprar um poeta”: “Percebi que estava cada vez mais inutilista e que pensava em coisas só pela beleza… (…) Por isso, jamais deixarei de me sentar ao seu lado, com metáforas na garganta, a trocar inutilidades. Tenho milhas a percorrer antes de dormir.”